segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Para se livrar da droga, ex-viciado se trancava no quarto e jogava a chave


Hoje, com 31 anos, José relembra da história como uma lição. Afinal, são quase cinco anos afastado do vício. O tempo corresponde à idade da sua primeira filha. O nome é fictício, mas a droga é real: crack. José começou no vício aos 20, quando a sua menina era recém-nascida. Casado, com esposa e mais responsabilidades, ele procurava nos amigos a "vida" que tinha perdido, a diversão, a folia.

Foi por influência do grupo com quem saía que começou a usar os primeiros alucinógenos. O vício veio gradativa, mas rapidamente. No final de 2000, experimentava com mais frequência o popular "loló", depois do qual passou para a maconha.

"Eu já tinha curiosidade sobre o crack nesse tempo. Quando você anda com pessoas que gostam de certas coisas, que fala em certas coisas, começa a bater a curiosidade de experimentar aquilo de que se fala. Numa balada, um amigo me ofereceu a droga", conta José.
Naquele momento, ele não resistiu - cedeu à curiosidade. "São geralmente cinco minutos de muita loucura, de delírio, de prazer. Depois que experimenta, você acha curto esse tempo. Quer mais, quer passar minutos sob o efeito, horas".

O crack é uma droga feita a partir da mistura de cocaína com bicarbonato de sódio (um antiácido). Consome-se no geral pelo fumo. Especialistas consideram que se trata de uma forma impura da cocaína, não um subproduto.

O nome da droga deriva do verbo "to crack", que, em inglês, significa quebrar. Vem dos pequenos estalidos produzidos pelos cristais (as pedras) ao serem queimados, como se quebrassem. A fumaça produzida pela queima da pedra de crack chega ao sistema nervoso central em dez segundos. Seu efeito dura entre três e dez minutos.

O efeito de euforia é mais intenso do que o da maconha e cocaína, juntos. Após o consumo, causa forte depressão, o que leva o usuário a usar novamente para compensar o mal-estar. A dependência vem daí.
Na primeira vez, José não ultrapassou uma dosagem. Teve receios. Ficou assustado pela potência do efeito causado pela droga. Apesar disso, não conseguiu tirar o crack da cabeça e, já a partir do segundo dia, começou a usá-lo com mais intensidade, duas, três, quatro vezes. Foram cinco anos de dependência.
Seus pais e sua esposa tentaram conversar com José. "Eles tentavam me orientar, eu não ouvia ninguém, só queria me drogar. Gastava grande parte do meu dinheiro nisso", disse. "Tentei parar várias vezes, mas a dependência é mais forte, incontrolável. Ou você satisfaz ou não consegue fazer mais nada".
O vício chegou ao ponto máximo quando, numa só noite, ele comprou dois mil reais da droga. Era todo o seu salário. Passou quatro dias, trancado em casa, usando o produto intensamente. "No quinto dia, minha mulher veio pedir dinheiro para comprar comida para minha filha, e eu não tinha".

Foi aí que José decidiu parar. Conseguiu se livrar do vício sozinho, tarefa para a qual precisou de um esforço quase sobre-humano. "Para conseguir me controlar, me trancava dentro do quarto e jogava a chave por baixo da porta. Assistia a filme, comia coisas que me davam prazer - fazia tudo para tentar me distrair".

Hoje, frequenta com a esposa uma igreja evangélica e se afastou dos amigos de antigamente. "Acredito que o viciado é influenciado principalmente pelas pessoas com quem ele anda", aconselha. "Tudo mudou: melhorou minha relação com minha família, meus amigos. Consigo trabalhar melhor, ganho mais". E completa: "Procuro sempre contar minha história. Porque o que fica na vida da gente é a lição". .

fonte: Jornal O Mossoroense

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